BISSEXUALIDADE: UMA “OUTRA” FORMA DE RESISTÊNCIA

Em texto que escrevi para o Blogueiras Feministas em 28/08/2013, intitulado “Lesbianidade, uma forma de resistência”, falei sobre a contribuição que as lésbicas prestam à sociedade a partir de uma perspectiva feminista. Deixando, em alguma medida, o amor das mulheres pelos homens na parte de fora das suas relações, não prestando então a máxima atenção a estes como ocorre historicamente nas sociedades patriarcais; e, ao mesmo tempo, representando uma forte ligação entre aquelas que tiveram e tem reiteradamente deslegitimada a sua condição de sujeito, a união afetivo-sexual das mulheres lésbicas representa um potencial de transformação na sociedade patriarcal, visto que provoca ou questiona as relações de amor firmadas muito mais na diferença do que na igualdade.

Considerando a minha vivência enquanto bissexual no Brasil já cerca de oito anos e o que tenho visto no país em meio aos movimentos LGBTs e feministas, há algum tempo penso sobre qual seria, então, a contribuição da bissexualidade enquanto identidade política. Que ganho teríamos em reconhecer a bissexualidade enquanto uma vivência com potencial para a transformação das relações humanas e amorosas tendo como ponto de partida aquilo que nós, feministas, desejamos e pelo que lutamos diariamente: a igualdade?

Ora, a pergunta em si já é bastante instigante. Porque ela talvez cause uma surpresa diante da suposição de que a bissexualidade poderia significar alguma coisa concreta a ponto de ser um instrumento de luta para alguém. Como assim? Se ela é colocada (quando aparece no cenário público) quase sempre como uma forma de viver descompromissada com o que quer que seja, com quem quer que seja? Se o resultado da histórica construção dessa experiência supõe que o único interesse de bissexuais, tanto de homens quanto de mulheres, seja o de fazer sexo com o maior número possível de pessoas? Se, no âmbito político, as e os bissexuais sejam lidos frequentemente e equivocadamente como sujeitos “indecisos”, “inseguros”, que não sabem para onde vão, de onde vem, e que diante de qualquer impasse preferem se posicionar em cima do muro a fim de não terem que assumir nenhuma posição?

Enquanto bissexual sou contrária a essa imagem – certamente! O que não quer dizer, entretanto, que não existam bissexuais que se comportem, de fato, dessa maneira promíscua ou politicamente insegura. Mas, vejamos, tudo isso aparece em praticamente todas as identidades sexuais! Mulheres héteros podem se comportar assim, homens héteros podem se comportar assim, lésbicas e gays podem se comportar assim – e se comportam… e muito! Então, qual seria o problema da bissexualidade

Como li e ouvi recentemente de companheiras bissexuais, “identidade sexual não define caráter”. De jeito nenhum! Por extensão, identidade sexual não diz nada sobre comportamento sexual, sobre vida sexual, sobre ser monogâmica/o ou poligâmica/o, etc. Sendo assim, não fica clara qual seria a verdadeira problemática da bissexualidade. Pelo contrário, como este texto se propõe a apresentar, o que no momento vejo são potencialidades! Antes de colocá-las em pauta, entretanto, permita-me esclarecer o que seria uma identidade bissexual e o que seria uma experiência bissexual.

Gosto muito de pensar a sexualidade como algo não estrutural, fluido, e que deve ser lida de maneira múltipla, não binária. Desta forma, não creio que as identidades sexuais ou mesmo as diferentes orientações sexuais sejam efetivamente caixinhas nas quais tentamos encaixar as pessoas, de maneira que se possa definir como gay um homem que faz sexo com outros homens – e ponto; uma mulher que faz sexo com outras mulheres como lésbica – e ponto; uma ou um bissexual como aquela ou aquele que faz sexo com pessoas de ambos os gêneros – e ponto. Não. Nascidas e crescidas em sociedades que orientam absolutamente todos os sujeitos para a vivência da heterossexualidade (heteronormatividade, assim chamamos), as pessoas conseguem com relativa facilidade envolver-se sexualmente – e afetivamente – com pessoas do mesmo sexo/gênero sem que, contudo, isso signifique uma mudança na sua forma de viver dentro de um sistema heteronormativo. Assim, temos uma infinidade de homens-que-fazem-sexo-com-homens (os chamados HSH), mulheres-que-fazem-sexo-com-mulheres (as MSM) que são, contudo, heterossexuais. Nessa perspectiva, podemos pensar que isso acontece porque a sexualidade é fluida, imprevisível, tal qual o desejo sexual. E o desejo não pode ser o único fator a definir orientações e identidades sexuais.

Veja bem. SER LÉSBICA, SER GAY, SER BISSEXUAL, é algo que diz de como a pessoa se identifica, como ela se vê e se lê. Diz não só de por quem ela sente desejo, mas também por quem ela se apaixona, com quem ela estabelece relacionamentos (estáveis ou não, monogâmicos ou não, tradicionais ou não), além de dizer também de como essa pessoa está nesse mundo; que lugar ela ocupa no mundo. Se ver como lésbica, gay ou bissexual é também dizer de uma leitura de mundo em alguma medida diferente da típica e reafirmada, reiterada leitura de mundo heterossexual. Assim como “ser” gay, lésbica ou bissexual significa ter experiências de vida diferentes, não esquecendo da noção de que só se pode “ser” algo quando esse “ser” vem de dentro para fora. Isto é, quando a própria pessoa se sente identificada com este ou com aquele nome, em vez de ser simplesmente “nomeada” pelo outro.

Considerando todo o horror propagado pelas “comunidades heterossexuais e homossexuais”, parece estar aí o problema da bissexualidade – que, a meu ver, pode também ser uma solução. Isto porque a atração afetivo-sexual por dois sexos/gêneros desloca a noção estrutural de que as pessoas estejam orientadas exclusivamente para aquilo que é entendido como uma maneira de viver esperada, correta (a heterossexual) ou uma maneira de viver considerada errada ou subversiva (a homossexual). “Ser” bissexual significa poder “operar” nos dois universos, ao mesmo tempo em que se questiona, através da experiência, tanto as normas colocadas por um lado quanto as normas colocadas pelo outro lado. Estamos no meio de dois extremos? Sim! Estamos em cima do muro? Não! Porque a nossa posição não diz de uma ausência de posicionamento, como defendem as teorizações que deslegitimam a orientação e a experiência bissexual, mas de um posicionamento que se localiza de modo a provocar ambos os sistemas de apreensão da sexualidade.

A identidade bissexual propõe também uma visão igual do potencial para relacionamento com pessoas pertencentes a ambos os sexos/gêneros. Deixando por hora de lado as implicações e os riscos da assunção de relações (eventuais e ou estáveis) homossexuais devido a homo-lesbofobia, a pessoa bissexual valorizaria tanto as relações sexuais e afetivas com homens quanto as relações sexuais e afetivas com mulheres, sem contudo reforçar a primazia do pênis, nem mesmo reivindicar uma primazia da vulva ou da vagina. Parece-me ser esta uma das grandes contribuições dessa vivência para o feminismo. Afinal, embora seja necessário questionar a dominação dos homens sobre as mulheres com bastante investimento, por outro lado reforçar o sexismo e a necessária dominância de um sexo/gênero sobre o outro pode nos levar a uma nova ordem, sim – porém, de alguma maneira, ainda desigual.

Uma crítica importante que é feita à bissexualidade enquanto identidade política é de que ela reforçaria uma leitura de sexo/gênero binária, a qual divide o mundo entre mulheres e homens, desprezando a existência das pessoas trans*. Sim, estou de acordo com o entendimento de que ela reforça uma noção binária de sexo/gênero. Mas não, não estou de acordo que o interesse sexual e afetivo das pessoas bissexuais não atinja as pessoas trans*. Afinal – e infelizmente, ao meu ver – vivemos num mundo (mais do que numa sociedade!) que funciona a partir de uma diferença dual de sexo e gênero. Não só as pessoas cis respondem a esse funcionamento, como também as pessoas trans* que, apesar de problematizarem de maneira brilhante toda a ordem de gênero e sexualidade, ainda tendem a se identificar de acordo com a distinção mulher/homem. Deste modo, considero que as pessoas trans* são desejadas, sim, pelas pessoas bissexuais (as quais  podem também ser trans* ou cisgêneras) e que a bissexualidade enquanto recurso político nada mais faz do que se movimentar de maneira coerente em relação â maneira com a qual o mundo está hoje organizado. Dessa forma, embora também seja acertadamente vista como uma identidade que se apoia no binarismo de sexo e gênero, a bissexualidade o faz utilizando uma estratégia política para mudar o mundo e torná-lo mais igual!

Outra face estratégica da bissexualidade, me parece, é o fato de os sujeitos políticos “nomearem” a sua experiência. Sabemos do caráter fluido e nada estrutural da sexualidade; recusamos responder condescendentemente à norma pelo “encaixe” na hétero ou na homossexualidade. Entretanto e ainda assim, nomeamos. Nomeamo-nos. Porque sabemos que nomear não é necessariamente “rotular”, “aprisionar”; mas é uma atitude importante para reivindicar reconhecimento e valorização da nossa experiência, assim como para reivindicar direitos. Ademais, acredito que, ao nomearmo-nos como bissexuais, isso não nos impede de nomearmo-nos de outras formas também. Nem mesmo nos fixa necessariamente às normas de conduta e vivência já existentes. No nosso caso, a identificação com um nome nos aproxima do nosso ideal para o mundo; é um recurso do qual nos utilizamos para lutar por reconhecimento, respeito e direitos.

Por fim, é importante destacar a pluralidade presente num mesmo nome singular. Nos movimentos, nos espaços LGBTs, algumas vezes ouvi que a homossexualidade não se trata de uma, mas de várias; a lesbianidade não se trata de uma, mas de várias. Assim também é com a heterossexualidade e a bissexualidade. É paradoxal, mas é disso mesmo que se trata. Somos uma, somos um, mas também somos várias, somos vários. Premissa que significa a possibilidade de fortalecermo-nos enquanto coletivo, mas também enquanto sujeitos.

A diferença, aliada à igualdade que aparece na vivência da bissexualidade, talvez seja um recurso para aprender a lidar com a diferença – que está colocada não só no movimento LGBT, como também nas relações raciais e de classe; além das relações pessoas, de trabalho, etc. Ademais, talvez a experiência bissexual também nos sirva para valorizar todas as experiências e reconhecer a contribuição que grupos diferentes podem dar para a mudança da sociedade. É o caso, por exemplo, das mulheres lésbicas,  héteros e bissexuais que, a meu ver, mais próximas ou mais afastadas das relações amorosas com os homens podem, cada uma à sua maneira, contribuir para o fim da dominação dos homens sobre as mulheres nessa sociedade patriarcal.

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual – See more at: http://www.bisides.com/2014/09/13/blogagem-coletiva-pela-visibilidade-bissexual/#sthash.Bmc0z5XJ.dpuf

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2 comentários sobre “BISSEXUALIDADE: UMA “OUTRA” FORMA DE RESISTÊNCIA

  1. Pingback: Dia da visibilidade bissexual: sobre sistemas de manutenção de preconceitos e opressão | poliamoretc

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